terça-feira, 8 de março de 2011

Mais um poema de amor

Naquela vez que desci ao porão da sua casa escutei poemas de amor absurdo-não o amor, e sim os poemas-declamados por alguém que eu não sabia quem, podia ser até você, já que nunca te escutei falar mesmo. Sentei num canto escuro já pensando na cerveja que ia tomar e no cigarro que ia inalar, quando as luzes se acenderam e uma figura com maquiagem pesada e borrada surge, com cabelos pretos lisos e enormes amarrados em um trança única jogada pra frente do corpo. Só poemas de amor eu ouvia repetidamente com meu sorriso de escárnio a posto esperando escutar “pau” e “vagina”-voilá- e a tão famosa rima. A rima. Desde quando amar é rimar? Amar é encaixar, não são essas palavras que harmonizam, são aquelas que complementam. É cérebro. É prosa. É árduo. Não é o céu, é o deserto. Não é siamês, é criar uma ponte na distância. Sinceramente, você. Com suas Neusas ignorantes, mas amáveis. Com suas musas de sarjeta, mas fogosas. Traga mais uma cerveja. Bata mais uma salva de palmas. Declame mais uma besteira. Deguste mais um poema de amor.
Estranho, não era aquela forma decadente quem falava apenas me encarava com aqueles olhos borrados. O que eu escutava não partia dela. Quem era esse interlocutor? Quem ouvia? Quem criticava?
E foi quando escutei a figura falar pela primeira vez:
- E você que nunca escreveu poemas de amor?
E eu?
As luzes lentamente apagando ou minhas pálpebras fechando.
“Neusa,
Neusa,
Neusa,
pudor,
amor...” – Calma, já estou chegando.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A estratégia da aranha

Dançando como Iansã lança suas teias psicológicas a aranha. Rodopiando a realidade seu fio cristalino envolve. Pela saliva pelo vermelho dos olhos em direção a rede atraído. Segue pela perfeição pelos ângulos simétricos absorto. Armadilha sob vital disfarce. Sepultado em egoísmo a mercê jaz iludido. Sarcófago dos anseios alheios força para ego.
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Não se preocupe.
Um dia ela construíra um para você.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Bem-vindo à Idade Média

Eu acabo de ler essa notícia:
"Em reuinão com representantes de 51 denominações evangélicas, Dilma Rousseff assumiu o compromisso de divulgar uma carta aberta ao povo de Deus. No texto, a pupila de Lula vai assumir o compromisso de não legislar sobre matérias como a descriminalização do aborto e a união de casais gays"

Não sei nem o que comentar direito aqui. Justamente quando eu estava mais que feliz por nesta eleição ter-se discutido estes assuntos com tanta intensidade. Eu não lembro de alguma eleição onde a união civis de gays, por exemplo, estivesse tão presente na pauta dos candidatos. Em sabatinas, em meio a perguntas sobre problemas de moradia, violência, sempre estava presente a questão da união civil gay.

E o que vejo agora? Um retrocesso jamais visto (no meu ponto de vista) na democracia brasileira. Para conquistar o voto de certos eleitores, nega-se o direito de uma minoria. O simples direito de ter uma união, como todo cidadão, independente de qualquer coisa, possui. Um direito que não pode ser negado em nome de alguns fanáticos religiosos. Um direito anteriormente defendido pelos candidatos. Falo candidatos, pois a notícia diz respeito a Dilma, mas não duvido que o Serra faça o mesmo.

Novamente a religião sendo usada em nome da exclusão. O clero mostrando as garras, mostrando que, apesar de não vivermos mais em feudos, eles ainda são superiores ao povo. E os presidenciáveis trocando dignidade e igualdade por votos. Esse é o Brasil que vivemos. Não o país do futuro, mas o do passado. Aquele que volta a Idade Média.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Inferno astral

Os felizes que me descuplem
ma(i)s
depressão é fundamental.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O Assassino

As digitais deixadas no teu corpo são apagadas pela lembrança. Não serei descoberto, nem recordado. O crime que cometi foi sepultado com a centelha viva do orgulho. Minhas mãos não penetram a derme, meu timbre não atinge o agudo cardíaco, minha face expressionista apaga-se com uma camada de tinta branca. Não deixo rastros. Não deixo pistas...

Como uma sombra, esgueiro-me seguindo teus passos cadenciados. Eu estava lá e você notou. Você sabia do perigo, mas mesmo assim me deixou entrar e eu esperei o momento propício, aquele momento onde o segundo passa a ser eterno. Como um caçador de vampiros, finquei estacas no teu coração. Teu corpo estendido no chão, o sangue escorrendo colorido, como se uma pintura estivesse se desmanchando...

Virei o corpo até poder olhar-lhe a face. Queria ver minha figura desaparecendo lentamente da tua íris. E para meu espanto, não, não para meu espanto, quem jazia morto não era você. Era eu. Eu me via sumir, uma chama não alimentada exaurindo-se. E você olhava esta cena com completo desdém...

110-florence and the machine-my boy builds coffins

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Plantei uma árvore, escrevi umas linhas e não terei filhos

Piazinho era como o chamavam. Mesmo com a altura e o peso. Mesmo com o bigode e os pentelhos. Garoto tímido. Garoto bobo. Sempre a caminhar de cabeça baixa, não prestava atenção aos risinhos, ao escárnio. Mentira. Não se deixe enganar, o semblante aéreo esconde signos de terra. Levanta essa cabeça. Lordose. Tinha aprendido essa palavra na aula, mas não sabia muito bem do que se tratava, problema de coluna, basta. A cabeça lhe pesava – o peso da dúvida – os ombros arqueavam. Corcunda. Tinha lido essa palavra em algum livro da biblioteca cheia de livros da coleção vaga-lume.

Era um garoto bobo, não se esqueçam. Não, ele não se afundava em livros eassimescapavadarealidadequelheapareciaclichêcruel. Ele gostava de sentir na carne. Queria ser mártir. Do que? Fora educado a ser sozinho: ganhou o Mega Drive com um controle somente; ganhou uma raquete de tênis com uma bolinha que jogava contra a parede do quarto do vizinho; ganhou a bicicleta quando a moda era roller. Sempre quis um cachorro, pedia cotidianamente por um cachorro. É pequeno demais. A cabeça ele pensava. Quando enfim conseguiu o cachorro, já gordo, não soube lidar com a situação de ter um ser dependente e o deixou ao deus dará. Piazinho gostava de seres independentes, os admirava. Fitava com admiração as meninas que na sétima série pegavam sozinhas o busão para ir ao shopping. Aquele lá longe, aquele depois de duas estações, desce pela porta da esquerda e anda uma quadra pela avenida.

Por essa época resolveu gostar da menina loira da sala. Ela disse que também gostava dele. Começaram a namorar. Garoto bobo. Piazinho + namoro = dar beijo no rosto. Tiveram que escrever uma redação intitulada “Se eu fosse um objeto, eu seria...” e escreveu que queria ser um gibi. Fora chamado a frente pela professora e percebeu que já passou da hora de meninos da sua idade lerem gibis e que deveria se espalhar no V. – vulgo o menino de jaqueta de couro e moto se fosse nos anos 50 ou o menino que sempre roubava pão na casa do João “quem eu sim você eu não então quem foi foi o V. foi o V.” – que escreveu que gostaria de ser uma camisinha. Piazinho saiu com a cabeça ainda mais baixa que normalmente perguntando o que deveria de ser o raio da camisinha. A menina loira se cansou de Piazinho rapidamente. Ela pediu um selinho e Piazinho não sabia o que fazer. Acabou por aí. Não soube o que se passava e não conhecendo metáforas achou que a melhor solução era escrever o nome da menina loira com carvão na parede em cima do tanque da casa dos avós.

Piazinho acabou se cansando. Principalmente de ser chamado de Piazinho. Queria ser Piá. Revoltou, fumou, bebeu, fumou, beijou uns caras aí, leu Nietzsche, beijou mais caras aí, descobriu a nouvelle-vague. De tudo Piazinho gostou. Mas ainda assim algo não mudou. Ser Piá era se libertar, mas quem se liberta de amarras prazerosas. Começou a se apresentar como Piá, mas Piazinho sempre será. E quem disse que não se sabe disso?